Sempre que penso no “meu” Adelino remembro com saudade quando era feito pelas mãos de minha mãe, no fogão de casa da nossa família. Vem-me recorrentemente à cabeça três palavas: esperança, altruísmo e alegria.

Esperança, daqueles que queimados e a sofrer, se deslocavam a casa dos meus pais com ansiedade e desespero. Traziam com eles a esperança suprema do alívio; a esperança em algo mágico, que lhes livrasse da dor, do medo e da incerteza de como ficaria no fim a sua pele.

Altruísmo, porque os meus pais eram de dar. Davam sem nada querer, davam apenas. Davam o creme, mas davam muito mais, davam descanso ao medo e à dor. Davam voz à calma, no fundo. Davam o creme “mágico da pele” em pequenos frascos cheios de esperança e fé. Davam porque eram de dar, pronto.

E depois vinha a alegria e a paz. Eu lia tão bem a paz da cura nos olhar daqueles que, alegres novamente, procuravam oferecer aos meus pais galos, galinhas, coelho, legumes e o tudo do melhor que a natureza dá… como só a gente da terra sabe fazer e valorizar. Oferendas que educadamente recusavam por saber da aridez da vida e das faltas nos pratos de muitos. Eram, assim, tentativas de oferendas, em forma de agradecimento, de alegria pela dor que desapareceu, pela cicatriz “bonita” ou pela admiração do resultado. Era tudo um “dar” tão genuinamente português.

De tudo isto guardo o exemplo. Adelino é hoje um negócio, sim, mas é muito mais que isso. É dar esperança, é dar alegria, é dar felicidade e ajudar e é também comunhão com o mundo e com as pessoas.

Só porque é bom partilhar, dar!

Paulo Marques